Opinião

A Baía de Guanabara e o complexo de vira lata no divã

O saudoso tricolor Nelson Rodrigues usava com frequência e expressão do “Complexo de Vira Lata” presente em alguns brasileiros e que tem merecido muita reflexão nos últimos dias dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Não falo nem pelo show e o sucesso que aconteceu pela exuberante abertura dos jogos que diziam os complexados que seria um fracasso e “pobre com componentes adquiridos no Saara”, ou um possível espetáculo “mambembe”. O que vimos foi um belíssimo espetáculo que chocou, de maneira positiva, todos que lá estiveram presentes e assistiram pelo TV ao redor do mundo e continuam assistindo nas redes sociais.

No fim de semana passada já havia olhado com certa desconfiança e até com um sorriso de canto de boca como quem vê um constrangido comentarista esportivo fazendo uma análise pós-jogo contraditória  ao seu prognóstico, quando o Jornal Folha de SP fez uma matéria, de página inteira, com atletas internacionais tecendo loas e elogios quanto a qualidade da água da Lagoa Rodrigo de Freitas. Aquela condição das águas onde acontecerão as competições de remo que parecia derivar até um ato divino e repentino, não era creditado ao trabalho realizado durante seis anos quando no governo Sérgio Cabral/Pezão foi implantado toda uma Galeria de Cintura no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas que foi integrada à construção de oito (8) elevatórias e um moderno Centro de Controle Operacional (CCO) instalado no Leblon  junto a Niemeyer (aliás, com o apoio do Eike), que monitora, online, 200 pontos de possíveis lançamentos nas Galerias  e Águas Pluviais que desembocam na Lagoa Rodrigo de Freitas e na Zona Sul da Cidade do Rio.

Além desse investimento na Lagoa e até como refinamento do trabalho da engenharia foram eliminados lançamentos difusos de esgotos que aconteceriam em outras galerias de águas pluviais da Prefeitura no Jardim de Alah que também impactava a Lagoa e principalmente a Praia de Ipanema, que se tornou balneável de novo.

Diziam os complexados em vira latice que o sistema da Lagoa não iria funcionar!! Pois bem, funcionou, está funcionando, e irá funcionar muito bem durante décadas, apesar de isto obviamente não representar a impossibilidade de que aconteçam novas mortes de peixes que acontecem por outros fenômenos estes sim climáticos, que dificultam a oxigenação da lagoa e proliferação de algas, mas que em nada se relacionam com colimetria, ou seja, com lançamentos de esgotos que existiam por décadas.

Pois bem, hoje (09/08/2016) o jornal O Globo estampa uma matéria de quase página inteira onde os atletas internacionais ficaram, no inicio da competição de Vela, abismados com a “água límpida” nos pontos onde estão acontecendo as provas, inclusive citando que gostariam até de mergulhar na água. Obviamente isto para os complexados foi mais um ato de Deus ou meramente das marés até porque dizem que ele é brasileiro e outros afirmam ser carioca e porque não dizer também que torce para o Fluminense como Nelson Rodrigues!! Ou seja, seria mais um ato do acaso ou das marés e não fruto de um trabalho!!!

Neste cenário da Baía de Guanabara que me motiva escrever esta reflexão, os amigos mais próximos sabem que praticamente nasci na Ilha do Governador, onde vivo desde os 5 anos, e como militante de processos de desenvolvimento do bairro e sempre lutei pela Baía de Guanabara, pois lá moro e vivo sem desconhecer que pela topografia da nossa cidade, que chove muito mais que outras cidades olímpicas como Barcelona, Tóquio, Londres, a Baía é o desague quase imediato de todo o sistema de drenagem de águas pluviais e portanto receptor direto da drenagem de uma região metropolitana que é uma das maiores do mundo e maior em concentração populacional que  muitos países da Europa.

Da mesma forma como engenheiro e morador sempre busquei compreender os fenômenos que levaram a degradação da Baía de Guanabara e logicamente o que deveríamos fazer de concreto para enfrentar estes problemas até porque desta responsabilidade me coube como gestor público e quando falava há quatro anos, o que era comprovado por medidas do INEA, que em função dos investimentos implementados o local onde teríamos as raias de competições olímpicas já estaria nos padrões internacionais para práticas, e muitos diziam ser impossível. Aliás, o Secretario André Correa foi um dos que acreditou quando assumiu a Secretaria, pois nos proporcionou uma cena forte, mergulhou usando camisa pólo no Fantástico no local e não pegou dermatite ou disenterias que inclusive o meu amigo infectologista Edimilson Migowiski me disse que seria improvável pegar e que me ajudou muito a desqualificar os analistas de vírus de plantão para a mídia!!

É importante também frisar que alguns jornais internacionais até recentemente chegaram contratar junto a “renomados pesquisadores” e por uma “Universidade Famosa” do Rio Grande do Sul, um diagnóstico da Baía  de Guanabara identificando um vírus que deveria ser avaliado na análise da qualidade da água ou até na presença de derivados de fármacos como hormônios que sequer existem para avaliação nas normas internacionais para analise para contato secundário como aplicáveis em praias do Mediterrâneo. Outros atletas locais ou pelo Complexo Rodriguiano ou por interesses pessoais inconfessáveis tentaram levar a regata para Búzios, e devem estar agora com dor de cabeça não por seus fracassos esportivos mas pelos resultados já aprovados segundo o Comitê Rio 2016 até pela OMS!!

Devo ser possivelmente um dos últimos remanescentes no Governo do Estado, que faziam parte do grupo que apresentou as propostas nesta área quando ainda éramos Cidade Candidata ao grupo técnico avaliador que veio ao Rio designado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em uma longa reunião no Copacabana Palace. Naquela reunião tudo o que firmamos de compromissos de investimentos, sem exceção, conseguimos implementar e até superamos. Guardo daquele momento junto com o COB, não só a gravata de lembrança que ganhei e que ainda uso, mas os aplausos a toda equipe por uma apresentação técnica, até porque a maior preocupação na ocasião não era nem o esgotamento, era se teríamos água potável em quantidade e qualidade para os jogos, fato que hoje não se fala mais e, aliás,  os aguadeiros da CEDAE já estão até servindo na fila para acesso aos jogos a tradicional “água de bica” da CEDAE isto sem causar nenhuma diarreia, ou seja os gringos estão bebendo água de bica!!

Aliás, este compromisso em despoluir a Baía em 80% para quem participou do Rio Cidade Candidata não existia em qualquer apresentação e só apareceu ao final do texto enviado pelo Governo Federal e sempre estranhei seu registro, pois o compromisso era implementar um conjunto de obras, pois quem conhecia a Baía sabe que por sua complexidade e a própria topografia e dinâmica de marés de entrada e saída de água tem e sempre terá pontos diferentes de melhoria.

Pois bem, mais uma vez se parece se creditar (ou debitar) essa matéria de hoje (veja as fotos abaixo Baia de Guanabara do Caribe) como um ato divino ou climático, ou de vento, que logicamente se relaciona com o lixo flutuante, este sim um grande problema não equacionado, que apesar de ser responsabilidade do conjunto de Prefeituras da Baía de Guanabara, o Governo do Estado desde o início da gestão  Cabral, em 2007, teve postura proativa com a colocação das ecobarreiras e barcos de coletas que apesar de poucos tem sido até então bastante eficientes.

Mas então o que foi feito na Baía de Guanabara nesses anos?

1 – A Estação de Tratamento de Alegria que não funcionava, entrou em operação tratando 2.500 litros em regime secundário. Isto é quase um Maracanã de esgoto a menos que deixa de ser lançado na Baía de Guanabara por dia. Muitos devem se lembrar do famoso lançamento de esgoto onde hoje existe o belíssimo Boulevard Praça Mauá em que as pessoas ficavam em cima da não saudosa Perimetral pescando em uma saída centenária de quase 1.000 litros por segundo que foi eliminada com a implantação do tronco coletor de mais de dois metros de diâmetro tipo um túnel feito com antigo Shield (Tatuzão) de dois metros de diâmetro ligando o Centro do Rio ao Caju por toda Rodrigues Alves. Este Shield era inclusive o recorde na ocasião que foi superado pelo monumental importado da Alemanha para implantar o Metrô para Barra que também para os Complexados não ficaria pronto para os jogos Rio 2016 e pasmem hoje está funcionando!;

2 – Foi colocada em funcionamento a Estação de Tratamento da Pavuna com 1.500 litros por segundo de esgoto que apesar de construída nunca tinha recebido uma gota de esgoto que, aliás, tem uma cobertura de tratamento de esgotos inferior a de capitais fluminenses;

3 – Foi colocada em funcionamento a Estação de Tratamento de Esgoto de Sarapuí, em Belford Roxo, com 1.500 litros por segundo em regime secundário também construída no passado antes do Governo Cabral/Pezão sem nunca ter recebido uma gota de esgoto. Aliás também ali em Belford Roxo entraram em operação outras estações  de Tratamento que estavam desativadas como Orquidea e Joinville;

4 – Foi colocada em funcionamento a Estação de Tratamento de Esgoto de São Gonçalo com quase 1.000 litros por segundo em regime secundário que também foi construída no passado sem nunca ter recebido esgoto;

5 – Foram eliminados lançamentos difusos de esgotos no projeto Sena Limpa (com o apoio entusiasmado do Minc então Secretário de Ambiente) em duas praias de grandes influências no local de competição que foram as Praia da Urca e Praia Vermelha, hoje inclusive em quase permanente balneabilidade e onde estão muitos atletas de Vela em instalações militares instaladas com praias quase que particulares;

6 – Foram eliminados grandes lançamentos difusos de esgoto que aconteciam em diversos locais e o bom exemplo é na minha paradisíaca Ilha do Governador (lógico que fiz também para o meu bairro) que eram as famosas 8 línguas negras da Praia da Bica, uma cena dantesca do bairro que foi eliminada junto com os urubus que lá estavam;

7 – Foi eliminado em um trabalho integrado Estado e Prefeitura o aterro (lixão) de Gramacho que lançava milhares de litros de chorume diariamente na Baía de Guanabara, um dos históricos e maiores passivos da Baía e que se considerava impossível de resolver e que corria até o risco de colapsar e se romper do continente!;

8 – Foi realizado a dragagem do Canal do Cunha permitindo a melhor circulação de água dentro da Baía, eliminando “pontos mortos” e permitindo a água circular melhor pela Costa Oeste da Ilha do Governador até o fundo a Baía no trecho que passa pela Praia de Ramos até as Praias de Tubiacanga;

9 – Foi eliminado numa galeria de tempo seco o histórico lançamento de esgoto dentro da Marina da Glória com destinação e bombeio para o Emissário Submarino de Ipanema que também diziam ser impossível de ser eliminados antes dos jogos;

10 – Foram, com muita pressão, e com um Decreto do Governador Cabral obrigando a interligação ao sistema formal de esgoto de muitos clientes públicos que faziam grandes lançamentos na Baía como Arsenal de Marinha (Ilha das cobras) e o Ciaga/Cefan na Avenida Brasil;

Foram dezenas de ações importantes de Engenharia Ambiental, porém citei somente dez ações representativas que estão lá para qualquer um assistir  e constatar sua veracidade e verificar já que não são realidade virtual (ou realidade aumentada) como os Pokemons que hoje invadem nossa cidade. Por isso que a cobertura da Baía de Guanabara com tratamento secundário  quase quintuplicou a partir do inicio do Governo Cabral, em 2007, saindo de pouco mais de 10% para mais de 50%, ou seja, implantamos mais do que em toda história da cidade!

É obvio que o dever de casa ainda não foi finalizado e muitas das ações ainda tem que ser executadas, porém as principais já foram iniciadas e principalmente já possuem funding equacionados, o que vai melhorar ainda mais a Baía, e, portanto ao contrário dos complexados não se perdeu com os jogos uma “oportunidade” e o legado continua e que são:

1 – Finalização da Estação de Tratamento de Esgoto de Alcântara em São Gonçalo já em construção com recursos financiados ao BID que estive inclusive com Governador Cabral e o Pezão no Uruguai liberando esse financiamento;

2 – Construção do Tronco Coletor de Esgotos da Cidade Nova também já licitado e com recursos garantidos pelo BID que reduzirá muitos lançamentos para o Canal do Mangue levando para a Estação de Tratamento Alegria;

3 – Finalização das obras que irão triplicar para 7500 litros por segundo a capacidade de tratamento da Estação de Alegria e com coleta da região da Maré em licitação pela CEDAE. Aliás, isso fará com que o sistema do antigo programa PDBG concebido para tratar 5.000 litros em sistema primário esteja tratando quase quatro vezes mais que o projeto original, já que o atual sistema é com tratamento secundário o que não era previsto no originalmente assinado;

4 – Finalização do Projeto Sena Limpa em Paquetá onde os dutos submarinos já foram lançados e a Galeria do Cinturão implantada faltando apenas a elevatória o que já melhorou. É importante também a finalização do sistema Praia da Bica da Ilha do Governador e que alguns trechos a partir da Praia de São Bento não foram feitos até de integração ao sistema de esgotamento pela obra do Morar Carioca que a Prefeitura está fazendo para a comunidade  da Vila Joaniza e que tem  esta obrigação em licença;

5 – Implementação de melhorias  de fato pela Concessionária Privada (Foz Águas) que atua na AP-5 que ainda pouco fez em relação ao esgoto tratado na sua área que deságua na Baía de Guanabara como Vila Kennedy, Bangu e Deodoro, mas tenho certeza que será feito, pois está no compromisso daquele Consórcio com a Prefeitura.

6 – Implementação pela concessionária privada Águas de Niterói de um programa para que suas estações sejam em curto prazo transformadas para Tratamentos em Sistema Secundário (95% de retirada de carga orgânica), já que algumas ainda fazem Tratamento em Primário (só retiram 40% da carga orgânica) e lançam através de um emissário no meio da Baía de Guanabara;

7 –  Fazer com que importantes clientes em especial públicos que se recusam a se conectar no sistema oficial, como Aeroporto Internacional do Galeão, saiam dessa imobilidade que conseguiram absurdamente na justiça ao meu ver ao arrepio da legislação.

8 – Colocação em funcionamento pelo INEA em parceria com a Prefeitura ou até com a CEDAE, a UTR (Unidade de Tratamento de Rio) Irajá que já está pronta há mais de um ano e tratará 10% da Baia de Guanabara e que trará grande benefício para o fundo de Baía em especial para Costa Leste da Ilha do Governador;

9 – Melhoria do sistema de coleta, retenção de lixo por Prefeituras que reduzirá o lixo flutuante hoje contido pelo Governo do Estado pelas ecobarreiras, este sim é um grande desafio que acho que na capital deveria ser capitaneado por uma empresa exemplar que temos que é a Comlurb;

10 – Parcerias pela CEDAE com a iniciativa privada concedendo o sistema de esgotamento da Baixada Fluminense nos moldes do sistema já adotado pela Prefeitura no Rio de Janeiro para AP-5, aliás, já anunciados pelo próprio Governador Pezão como uma ação estratégica do seu Governo e que acredito que fará!

11 – Implementação de uma solução definitiva e integrada entre CEDAE e Rio Aguas para captação dos lançamentos difusos que saem no Rio Berquó na Praia de Botafogo ao lado da Churrascaria Fogo de Chão, hoje coletados por um sistema de retenção por comportas operadas pela Prefeitura que normalmente as abre todo dia na parte do final da tarde o que ao meu ver não deveria acontecer em momentos secos;

Desta maneira é muito cedo ainda para comemorar e logicamente alguns saquinhos plásticos ainda podem aparecer nas competições de Vela, mas mesmo que não apareçam e como Psicólogo para tratar Complexo Vira Latas não está coberto em plano de saúde, vamos usar a matéria de hoje do jornal O Globo para refletir, pois apesar de temos muito dever de casa ainda, muito foi feito em um grande trabalho em equipe e mais do que em toda história e isto sim é um grande legado e devemos nos orgulhar dele!

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